segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Era uma vez no olho do tigre

     Era uma manhã chuvosa de sábado. Acordei por volta das nove horas e chuva sempre é convidativa para se continuar dormindo, mas, neste dia eu tinha acordado com algo mais, alguma coisa dentro de mim não me deixava voltar a dormir. Continuar deitado era a melhor hipótese do que acordar para não ter nada o que fazer... continuei na cama e esse algo me incomodava, então busquei ficar olhando meu quarto, as roupas da noite anterior que tinha apenas colocado sobre a cadeira da mesa do computador, as portas marfim do guarda-roupa fechadas, o tapete persa no qual sempre me encorajou pôr os pés sem medo do piso gelado... Ficar olhando para meu quarto foi bom por um tempo, o sono não vinha, algo dentro de mim tinha despertado junto comigo, talvez por ter ido dormir cedo demais na sexta-feira coisa que geralmente não faço, mas minha ficante foi em uma festa na casa da irmã dela, coisa de família, ainda não é para nosso momento. Eu tinha tomado umas com alguns amigos depois de deixar o trabalho e após o jantar em casa, peguei no sono assistindo alguma coisa na Tv. Na cama pensando sobre coisas para fazer quando resolvesse sair da cama, lembrei que tinha livros do qual nunca tinha lido e estavam bem ali, dentro de uma das gavetas do guarda-roupa, quantos dos que estavam ali eu nunca tinha lido? Lembrei de dois; um presente do meu professor de literatura do ensino médio e um outro de poesia que tinha comprado na livraria só pelo título: A fera no espelho. Um nome intrigante, acho que o livro deve ter vendido muito com este título, mesmo que as pessoas que comprem nunca leem... tomei coragem levantei e caminhei em direção ao guarda-roupa, abrir suas duas portas de marfim, abrir a última gaveta e no meio de vários livros do meu curso de TADS¹ encontrei o presente do professor: O sofrimento do jovem Werther – Goethe.
     Voltei em direção a cama, separei as duas folhas da cortina, abrir a veneziana e deixei que o pouco de luz entrasse... A chuva continuava lá fora e de volta na cama passei a ler o livro. Não demorou muito até que minha mãe me convidava para o almoço. Almocei, conversamos com o som da TV ao fundo e continuei assistindo até o fim do jornal. De volta ao quarto passei boa parte da minha tarde lendo, tomei um xicara de café no meio do livro e não consegui desapegar mais continuando até o fim... Quando terminei senti o sono que esteve fora pela manhã voltar, ao som da chuva que continuava lá fora deitei e dormi. Eram vinte horas quando acordei com meu celular tocando, era ela. Conversamos e ela me convidou para ir em sua casa mais tarde naquela noite, seus amigos estariam com ela e comigo para passar o tempo. Levantei mais disposto, me sentia bem, mais calmo e feliz do que sempre é quando acordo. Tomei um banho, conversei com minha mãe que ficou um tanto surpresa por eu ter dormindo a tarde toda de sábado, não era do meu costume.
     Ás vinte e uma horas estava eu no portão da casa dela, não chovia por algumas horas e o tempo estava agradável, nos beijamos e entrei. Ela estava se produzindo entre o quarto e a sala onde eu estava assistindo Tv. Ela estava feliz e falava muito sobre tudo. Quando me dei por mim, despertado por algo interessante entre; chegando os amigos dela, fazendo amizades, sentamos todos na garagem em volta de uma mesa, abrindo cerveja, comendo petiscos, ouvindo um jovem tocar violão e a sua pergunta:  você não canta? Só sabe ouvir?  Sorri e disse que ele tinha uma voz bonita e com o coro feito pelas mulheres soava melhor, prazeroso. Elas sorriram e ele não disse mais nada, até então nem lembrava de termos trocados palavras... Estava uma noite agradável, enquanto ouvia aquelas músicas pensava que até três semanas atrás não conhecia ninguém ali e fora ela, estava conhecendo seus amigos naquela noite; as duas loiras, uma morena e o rapaz tocador. Uma de suas amigas, a Loira de cabelo comprido, estava com ela na noite em que nos conhecemos e ficamos. Era uma festa típica da cidade, música alta, sertaneja, muitas pessoas, sempre em rodinhas de amigos, eu estava meio bêbado, eram duas da manhã e não tinha conseguido nada com as moças que conheci no decorrer da festa. Deixei meus amigos e algumas moças amigas e outras não, para ir ao banheiro e quando retornava estava tocando aquela música do qual você chega em uma moça e a convida para dançar. A banda faz sua parte, você só precisa fazer a sua... Ela estava com essa amiga loira de cabelo comprido no canto do salão perto do bar, talvez estivessem esperando alguém trazer as bebidas ou elas estavam indo comprar bebidas, nunca perguntei sobre isto. Ela vestia um vestido azul curto sem mangas em corpo atraente, mas foi seu cabelo loiro curto que me interessou... Convidei para dançar, ela ficou enrolando, ficamos um tempo conversando e depois chegou alguns caras perto da amiga dela, mas, não nos importamos, eles pareciam fazer parte da noite dela, mas estávamos fluindo bem. As vezes ela era escorregadia, talvez pela idade, não que passasse sua idade de alguma forma, mas sabíamos que ela era uns anos mais velha. Naquela noite a banda e o DJ fez sua parte, como sempre faz e eu não perdi nenhuma das oportunidades até que dançamos e foi bom, dançar sempre é bom, eu sei, mas com ela foi diferente.
     De volta a garagem, o tocador foi ao banheiro e ela estava fumando, ainda não tinha visto ela com cigarro ou percebido de alguma forma que ela fumava, mas não me importei, fiquei um tempo olhando ela fumar, seu cabelo curto, seu sorriso e ás vezes em que a fumaça do seu cigarro tentava entrar em seu olho... A música agora era do aparelho de som e o rapaz que tocava nos divertia com piadas e todos conversávamos ao mesmo tempo, hora ou outra eu beijava ela, mesmo ela fumando muito e aparentando estar bêbada, pareceu-me mais sexy fumando e bêbada do que antes e de alguma forma olhar para ela, estar entre eles era bom. Assim como a cerveja não parava de chegar, as piadas pareciam prontas e sempre lembrávamos de mais uma não parando de sorrir e conversar. Acabei por aceitar que todos estávamos bêbados e talvez por isto uma piada ou uma conversa que até hoje não entendo, acabei por brigar com o rapaz do violão e tudo começou por causa de animais e homens.
– Somos todos animais, todos iguais, iguais aos cavalos, aos cachorros... – disse eu. E elas riram, mas ele ficou bravo:
– Como pode você dizer que somos iguais aos cavalos, isto é uma idiotice! – Riamos mais ainda, como ele poderia ter se zangado com isto? Não sei! E uma das loiras disse:
– Sabe... quando eu entrei pelo portão e vi você abraçado com minha amiga, eu vi uma luz em você. – Foi o fim! Falamos todos ao mesmo tempo:
– Luz?! – Riamos mais ainda!
– Como assim? – Disse eu. Ela sorriu, bebeu mais cerveja e disse:
– É! Uma luz... Acho que você tem algo especial, sabe especial... – Ao fazer aspas com os dedos foi mais hilário ainda. – Luz – Eu e as meninas dizíamos nos olhando. Mas ele, ele parecia não pertencer ao clube, comprou os ingressos para o circo para ficar jogando ovos no palhaço.
– Somos criados por Deus! Não somos iguais a nenhum animal! – Para mim ele tinha passado dos limites e eu quis romper também com os limites. Eu olhei bem nos olhos dele e disse:
– Eu sei que os outros animais não podem se reconhecer no espelho. Sei também que eles vivem sem perceber a passagem do tempo, vivem todos os dias como se não houvesse dias. Nós, humanos somos abstratos e eles todos concretos e nem sabem disso... O que é uma pena porque somos todos animais, todos iguais! Somos todos animaizinhos e só sinto por eles que não sabem que também são Deuses... – Por um momento todos param de rir. Eu era o único que sorria um sorriso talvez zombeteiro. Ele não gostou nada do que eu disse... Eu sabia que todos ali tinham suas crenças, todos com crucifixos de ouro em seus pescoços. O que eu disse mexeu com todos, mas com ele foi mais profundo. Levantando-se de sua cadeira após ouvir minhas palavras em som bêbado, disse gritando:
– Seu desgraçado... – Tentou acertar um soco se jogando por cima da mesa, com isto copos caíram derramando cerveja. Afastei-me para traz levantando também, ele já em pé pronto para continuar com sua irá, veio em minha direção. Ela que estava ao meu lado direito levou e colocou suas pequenas mãos brancas em seu peito tentando impedir de passar, eu não sei porque, mas no primeiro momento temi enfrenta-lo, talvez não fosse isto que eu queria com todas aquelas palavras saindo por sair. Elas levantaram assustadas e seguravam ele dizendo:
– Deixa disto! Ele só está brincando... – Mas seus gritos de ódio continuavam.
– Chega! É melhor ir embora... Deixa disto, para com isto, você não é assim. – Elas diziam. E naquele momento senti uma felicidade, não conseguia tirar o sorriso de meu rosto. Meu coração pulsava forte em meu peito ao olhar os grandes olhos dele de irá vermelhos sobre mim. Por um momento desejei que ele rompesse aquela barreira e começássemos a trocar socos, chutes, caíssemos no chão rolando e tentando acabar com o outro! Talvez meu sorriso zombeteiro continuava para que no fim brigássemos mesmo! Elas não deixavam ele passar, diziam para ele ir embora, que aquilo não era do seu feitio. Eu no meu canto continuava apenas olhando até que ela disse que ele era seu amigo e que ele não tinha que ir embora. Neste momento senti que se eu não fizesse alguma coisa, eu teria que ir embora... Então chamei ela, talvez fazendo ela pensar que eu iria embora. Enquanto suas amigas continuavam conversando com ele, ela veio até mim. – Olha – disse – ele é meu amigo, gosto muito dele e ele não vai embora.
     Neste momento segurei sua mão e sai puxando, passamos do outro lado da mesa, pelo canto oposto de onde ele permanecia seguro pelas meninas e caminhamos em direção aos fundos. Chegamos na porta da cozinha que estava aberta, entramos, passamos pelo corredor até a porta do seu quarto abrindo a porta, coloquei ela para dentro. Prevenido fechei a porta com a chave e passamos a nos beijar como se fosse o último beijo, depois de todo aquela euforia estar em seu quarto tirando sua roupa e beijando era como se a qualquer momento eu fosse deixar de existir. Fizemos Sexo... Deitados olhávamos para o teto. Meu coração tinha deixado de querer sair para fora, estava totalmente relaxado. Não sei quanto tempo já estávamos no quarto e ela disse:
– Vou sair... preciso fumar um cigarro! Se quiser continuar deitado, você quem sabe... – Ela levantou-se, ligou a luz e vestiu outra roupa de seu armário e depois saiu. Eu não levantei para trancar a porta e continuei por um pouco mais de tempo deitado olhando para o teto. Lá fora parecia tudo normal; a música continuava tocando e o som da conversa tímida ressurgia. Resolvi que era hora de dar as caras pensando que provavelmente ele tinha percebido como eu percebi que tudo não tinha passado de uma tolice. Quando cheguei na porta da sala e olhei para eles na garagem, pareciam menos a vontade que antes. Olhei para ela e quase pedi um cigarro ao vê-la com um cigarro entre os dedos e seu cabelo curto um pouco bagunçado. Fiquei na porta e ninguém olhou para mim, senti que realmente era hora de deixá-los. Pedi para que ela abrisse o portão, disse apenas: Boa Noite pessoal e sai... Na rua senti a que noite estava fria e que cainha uma neblina fina... Depois desde dia ficamos umas algumas semanas sem trocar mensagens ou ligações. Algum tempo depois encontrei com ela em uma balada, conversamos em um espaço privado onde ela pode fumar e no final da conversa concordamos sobre momentos e diversão.


¹ Tecnologia em Análise e Desenvolvimento de Sistemas.

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