quarta-feira, 25 de março de 2015

Terra dos mortos

– Bem vindo à terra dos mortos – Falou quando abri meus olhos...
 – Quem é você? Onde estou? – Perguntei.
– Hoje eu sou você! Você esta morto...
– Isto eu sei, eu vi minha morte! Quem é você que se parece tanto comigo e quem são esses? – Levantei do chão coberto por corais cinza, que se parece com o fundo de um oceano que secou e agora é cinza e podre. Olhando ao meu redor milhares de pessoas, como em um grande estádio, todos em circulo formando morros de pessoas que em silêncio me olhavam.
– Elas estão aqui para que você conte sua história. Elas querem saber quem é você, como viveu, dos seus primeiros dias até sua recente morte...
– Mas se você sou eu, porque não conta para elas? – Falei olhando aquele que se parece tanto comigo.
– Ora... e você ser um mero espectador? Você esta aqui, conte para elas... Não é emocionante quando eu conto, perde a graça se não é você que vai contando sentindo cada alegria e dor... – Sorriu ao dizer
– Vamos comece... – E essas palavras “Vamos comece” se repetia em ecos cada vez mais alto como se todos aqueles ao meu redor repedissem inúmeras vezes aquelas palavras. Sem reação fiquei por um tempo olhando aquelas pessoas, todas estavam mortas. Sentia e sabia disso ao olha-las e olhando para meu corpo, tive certeza que de como morremos chegamos à terra dos mortos.
– Vamos... Comece contar sua história, esses milhares estão aqui só para ouvi-la...
– Vocês não tem outra coisa para se fazer? Por que ouvir minha história? – Gritei para todos...
– Sempre essa mesma timidez... Preste atenção, logo mais você estará nessas arquibancadas também e ficará por tempos e tempos ouvindo histórias é isto que nos mantem aqui... Não temos outra coisa se não ouvir histórias de vidas...
– Não vou contar nada para vocês! Eu não vou ser como vocês...
– Você já é como nós! Olha... – Com a mão em meu ombro disse: – Você só tem uma chance, você só poderá reviver todas essas emoções que viveu em vida uma única vez! E isto só acontece quando se chega aqui... Pense que você revivera cada momento importante da sua vida de novo...
– Já disse que não vou contar nada! – Abaixando minha cabeça, tinha certeza que não queria reviver nenhum momento da minha vida!
– Não faça isto! Você acha que aqui você manda em você? Olhe pra mim, quem você vê?
– Sou eu mesmo, como um espelho! – Disse.
– Então... Se você não contar eu vou contar por você... Mas entenda que eu não gosto de fazer isto, eu gosto de ver vocês que chegam aqui revivendo suas dores, suas alegrias, lembra-se da sua primeira cicatriz? Do primeiro beijo?
– Já disse que não quero!
– Quando terminar, tem um caminho que pode seguir, não sei se você vai chegar em algum lugar, não posso garantir mas, quando os que já estão aqui ficam entediados com as histórias dos novatos, sabe, o mundo pode não agradar todos né, então eles pegam esse caminho e diz a lenda que no fim do caminho você pode deixar uma mensagem para o mundo, vai saber né... Faz assim, conte sua história e depois se vai... E todos ficamos bem, o que acha? – Disse com a mão em meu ombro e sorrindo.
– Não vou dizer nada! ­– Minha cabeça continua baixa e não tenho a mínima vontade de contar nada.
– Vou começar, está bem? Não tem nada demais em só começar... Agora estamos no início. É muito cedo para falar dos pais e família, ainda não os conhecemos. Sinto gosto de leite que me alimenta sem saber que é leite. Conforme vou crescendo sinto gosto de maçã, mamão e banana sem saber que são frutas, apenas o gosto que se repete em minha boca... – Interrompo.
– Pare... Você não pode contar minha história!
– Posso, eu sou você! E eles querem ouvir sua história, é por isto que estamos aqui! Não é pessoal? – Todos claro, concordam.
– Não! Não quero que conte... – Falei com lágrimas escorrendo pelo rosto.
– Está sentindo o gosto de maça, mamão e banana em sua boca né? – Disse ele/eu.
– Pare, por favor! Eu imploro! Pare!
– Por que? Não esta gostando do gosto que sente em sua boca? Sinta por toda sua boca...
– Não! Não! – E arrancando minha língua, jogo ao povo que assiste, cai de joelhos e escorre pela minha boca papinha que mamãe me alimentava...
– Que insolente você! Agora você realmente não pode mais contar, uma pena não?! Mas eu, eu posso! Eu mesmo sem língua posso! E mesmo que arrancasse o pescoço, eu ainda continuarei contando até sua morte! Todos aqui querem saber como morreu! E eu, eu vou adorar ver você sentindo tudo, tudo!
     Ainda de joelhos levantei minha cabeça e olhei para meu rosto que ainda saindo papinha pela boca, continua contar minha história de vida. Tudo que eu vivi ele vai viver enquanto conta, ele precisa contar para existir no mundo real vivendo uma vida como ser humano apenas pelas histórias que conta!

Nenhum comentário:

Postar um comentário