terça-feira, 25 de novembro de 2014

O mais bobo dos bobos

       Morávamos: eu, minha irmã (mais velha), minha mãe e meu pai em sítio herdado por minha mãe e lá passei toda minha infância e juventude até serviço militar. A escola era longe e íamos montados em cavalo eu e minha irmã, nada comparado como as cansativas viagens em carro de boi para cidade onde fazíamos compra em cada três ou cinco meses.
       Quando eu estava em idade de sete anos recém-completados fomos todos para cidade fazer compra para o final de ano, pois naquele final de ano, havia um combinando feito no final do ano anterior no qual os parentes da minha mãe e de meu pai passariam Natal e Ano Novo conosco no sítio... E por uma coincidência, ouvimos anúncio várias vezes pelo rádio que aquele programa de TV com o ícone popular do povo chegaria na cidade para realizar suas famosas gincanas, onde presenteava os ganhadores com prêmios. Cidade toda se organizou para receber as gincanas do programa de TV. Ao chegarmos à casa de minha avó e meu avô, pais de meu pai, o dia de fazer as inscrições para os vários desafios tinha começado. Meu pai se dispôs e passou quase a tarde toda em fila na frente do cinema para fazer sua inscrição enquanto minha mãe junto com algumas tias minha, cuidaram das compras enquanto eu e minha irmã ficamos na casa dos avós. De noite estavam todos reunidos em casa dos meus avós e, minha avó sabendo do desafio do meu pai que foi alertado por todos que essa gincana de nome gozador: Os mais bobo dos bobos era a mais difícil do programa, pois ela dava prêmio ao vencedor em dinheiro ou o que se escolhesse no valor do prêmio. E minha avó fez uma “mistureba” – palavras de minha mãe – fazendo meu pai comer até não se aguentar para ganhar força e vencer o desafio. O que meu pai tinha escolhido como prêmio quando fez sua inscrição, ele não confessou, só depois ficamos sabendo.
Após várias etapas e gravações das gincanas com toda população da cidade, chegou o momento do desafio de meu pai. Conta-se que estava um sol daqueles, eram umas três da tarde, todos foram ao local da prova: o cemitério atrás da grande igreja. Lá câmeras, o senhor ícone popular com a cidade toda em cima de muros, nos bancos destinados aos primeiros que iam chegando, árvores onde crianças e adultos subiam. Como a segurança do programa e os policiais cuidaram para não destruírem as casas dos mortos, ficou-se pouco lugar para sentar e conseguir assistir à prova. Minha mãe ficou no final de um grande retângulo de pessoas pelo lado de fora. E todos nós ficamos lá de longe... só ouvíamos pelos altos falantes o que se passava na prova.
E lá estava meu pai entre os dez que concorria aos seus prêmios. Apresentações e dizeres do que desejavam ganhar. Uns queria passagens para São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília: lugares de oportunidade. Outros pediam o valor em dinheiro, poderia fazer muito com ele: diziam. Ao chegar à vez de meu pai, todos riram com seu desejado prêmio: uma bicicleta não muita alta para os filhos. O popular ícone perguntou umas duas ou três vezes se era isto mesmo e sua resposta foi: essa é a única gincana de todas no qual posso ganhar uma bicicleta para meus filhos. Minha mãe quando chegava nesta parte da história, em todas às vezes corriam lágrimas de seus olhos e agora contando para vocês, olha só: eu chóro.
Por fim deu-se início. O desafio como já falei era um tanto complicado: tinham de arrastar um caixão de madeira pesando 100KG – palavra de meu pai – por uma distância de dez metros até uma cova... Detalhe: tinham de arrastar apenas com a força da perna direita; ou com a sola do pé ou lateral do pé ou canela, somente assim poderiam fazer.
Meu pai foi o quinto e o mais rápido dos quatro anteriores. O sexto não conseguiu arrastar. Como também não conseguiu o nono e este foi motivo de risos gerais. Meu pai conta que ele ao chegar poucos centímetros da cova depois de muito tempo arrastando seu caixão deu-lhe uma câimbra daquelas... Ele pulando com uma perna só e gritando caiu dentro da cova e de lá não conseguia sair. E todos que lá estavam gritaram “o mais bobo dos bobos” em coro e riam do pobre coitado.
O essa história que conto para vocês, ouvi durante toda minha vida de minha Mãe com meu Pai sentando junto dela na varada de casa... Em todas às vezes que ouvíamos minha Mãe víamos suas lágrimas. Desde dia só tenho uma única lembrança: Meu pai passando por um grande número de pessoas felizes, todos sorrindo e alguns diziam: Esse é o mais bobo dos bobos e outros diziam: não é aquele da câimbra... Outros falavam de sua perna forte e o cumprimentava. Minha mãe disse no meio de todo aquele barulho de alegria: João... você ganhou. E meu pai sorrindo mais que todos ali, traziam uma bicicleta vermelha com fitas vermelhas. Lembro-me daquele momento de felicidade do meu Pai saindo da multidão como também me lembro dos tombos e corridas pela estrada... De como ficamos bobos com o prêmio.

Nenhum comentário:

Postar um comentário