sábado, 25 de outubro de 2014

Jovens do Niilismo

     É domingo à tarde. Faço minha caminhada todos os domingos quando não chove – nesta praça. Antes de me alongar, enquanto caminhava em direção à pista de caminhada, li em um dos cartazes espalhados pela praça: Primeiro Encontro Niilista do Brasil. Perto da grande fonte no centro da praça, jovens sentados no chão em círculo. O cartaz me convidou a sentar junto deles e entender melhor o que é esse encontro e mesmo sendo tímido, sentei no espaço vazio do círculo cumprimentado com a cabeça uns que me olhavam desconfiados. Sentei-me e logo se levantou um jovem magro calçando chinelos de dedo, calça social e camisa de manga comprida sem gola e de poucos botões no peito. Com atenção de todos, ele começou:
– Primeiramente Boa Tarde... – Boa Tarde  Como todos aqui sabem; fui o criador do Grupo no Facebook e tive a ideia do Primeiro Encontro de Niilistas do Brasil. Vou ler o meu Manifesto e depois pela ordem estabelecida no Grupo, vocês leem os seus Manifestos também. Lembrando que só através de um Manifesto de sua autoria você poderá expressar suas ideias. Então sem mais delongas começo:
     Essas histórias que impulsionam os povos são usadas para manipular famílias, ensino, trabalho, lazer e de modo geral a política. Todo nosso conhecimento que é adquirido de forma forçada, nos obriga por meio dessas psicoativas, psicodélicas, grande mídia, costumes, canais, estações, locais, cinemas, mídia social, educação, religião, viagem, mitos, lendas, dinheiro, moda, consumismo, comercio, prestadores de serviços, posse, sobrenome, nome, origem, futuro, carreira, prestigio, riqueza, destino, aceitação, caridade, admiração, ídolos, fãs, artistas, sucesso, eterna juventude, intelectuais, cientistas, mendigos, usuários, pobres, falidos, carentes, ricos, poder, classe, raça, direito, justiça, segurança, aceitação, ocultação, padres, pastores, profetas, padrão, verdade, homens da lei, velhos, política, política do partido, rei, etc... Que para se vê livre delas teria de se nascer nas montanhas, nascer como homem filho dos homens da floresta em seu habitat natural, como índio livre antes da colonização ou em uma comunidade de animais racionais projetada com novos padrões de vida, cultura e consciência moral estabelecida sem contanto com o mundo do caos e de qualquer conhecimento hierárquico dessas historinhas que o povo conta e que a ciência explica e tudo continua em lavagem cerebral de nós cobaias esperando esperançosos pelo apocalipse da extinção sem conseguir lidar com nossa real existência e que se vai se estabelecendo com tempo uma mascara, um outro, uma cópia de outro, um que se passa por autentico e que por fim só se adaptou no fracionamento de coisas, pessoas, lugares, filosofias de vida e religião, porém, no fim são só histórias onde tudo se revela à acredita que por ser tão sábias e proféticas conquista gerações com suas recusas de continuar vivendo para morrer acreditando que fez o que deveria fazer e quando não fez, lembra-se que não existe mais tempo ou não teve tempo e agora aceita sua morte ou morre sem aceitar e que não seja um fantasma incomodo que viu o que existe pós seu existir e não quer deixar quem está vivo viver a sua maneira como à cópia da cópia.
     Abaixando as duas mãos que segura a folha do seu manifesto e levantando sua face, correu os olhos para todos ali. Passou-se meio minuto talvez e vendo que ninguém falava algo ou batia palmas o jovem perguntou:
– Estão... o segundo quê se levantar e ler o seu? – Levantei e ele voltou à vista em mim. Deixando de ser tímido mais uma vez, disse:
– Tem vários meios de se libertar desse mundo que você não aceita ou compreende. Recomendo que vocês vão para alguma chácara, plantem e tentem viver por contra própria, já existem várias tribos: religiosas, nudistas, sustentáveis, vegetarianas, enfim... Criem uma niilista onde não se precisa de um sentido sendo tudo permitido e vão viver sem dizer como nós, essa cópia da cópia vivemos e temos nossas crenças... – Olhei a minha volta e todos me olhavam.
– Você... cadê seu manifesto impresso? Vamos voltar à ordem do sorteio, quem é o próximo mesmo? – Disse o jovem que olhando e vendo que eu não tinha nada nas mãos voltou suas vistas ao seu bloco de notas e mesmo assim continuei:
– Vocês querem destruir até a ciência? Você deseja voltar aos primórdios do homem e acha que todos são iguais a você? Que todos iram simplesmente aceitar suas imposições deixa ledo tudo que já tenham feito, toda sua história de vida? – Nisto Levantou um dos que estava sentado e disse:
– O meu niilismo continuamos com ciência, a ciência nos faz niilistas! O que devemos destruir são as religiões que atrasam o homem
– Não de ouvidos – disse o jovem do manifesto – ele não faz parte do nosso grupo e está tentando chamar atenção. Por favor, quem é o próximo?
– Vocês são loucos ou inocentes... Aposto que essa ideia não é sua e você deve ter... – interrompe o jovem do manifesto – Está cancelado o primeiro encontro de niilista. Esse homem não entende que não queremos conquistar o poder, queremos é destruí-lo! Vamos nos encontrar no grupo do face e escolheremos outro lugar que evidentemente não será mais em uma praça. Lembrem-se: nossas ideias expressas em cada manifesto servirão de apoio para escrevermos o manifesto final com todas nossas ideias juntas com o intuito de sair da escuridão que a miséria global nos força e com isto conseguirmos uma melhor vida social. Até breve pessoal...
     E todos se levantaram e se foram. Eu ainda tentei conversar em particular com um e com outro, mas todos saíram olhando para seus aparelhos celulares me deixando só...

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