sábado, 25 de maio de 2013

Professor

     Por quais motivos uma pessoa qualquer que antes era vista como pessoa normal, de bem, elogiada por sua família, amigos e vizinhos, planeja um assassinato e, não só planeja passo a passo, como cumpre cada um deles no momento decidido pela mesma? Quais motivos: ódio, inveja, vingança, medo, quais, quais sentimentos dominam essa pessoa e passa ser tudo que gira em torno de si, cada momento do seu dia em um só pensamento, várias e várias vezes se estendendo por dias. É difícil responder essa pergunta, como é difícil mudar uma ideia ou atitude de qualquer pessoa sobre qualquer assunto, é difícil convencer alguém quando a interesses por traz de cada atitude. Dizem que todo mundo um dia já pensou em matar outra pessoa, que já desejou mal para outra, enfim... E quando não se planeja? Eles apenas agem tomados de impulso e depois procuram inventa uma desculpa ou tentam explicar de um modo como se não estivessem enxergando nada em sua frente, estariam foras de si, contratam médicos, fazem exames, uns choram e dizem: – Fiz! E não me arrependo! Outros choram ainda mais e se dizem arrependidos. O certo é que inúmeras pessoas age às cegas...
– Por que você o matou? Por que fez isso porra? – Advogados... Já ouvi advogado fala que tudo é como um teatro, ele, precisa representar bem, convencer o diretor, convencer o público e, esses, mesmo com o texto original nas mãos, não podem perceber um erro de fala ou qualquer outro erro, sua habilidade de incorporar o personagem e ocultar o roteiro para defender seu cliente é maior.
– Ele era uma bixa, um viado filho da puta! – Convicto e sem remorso, é assim que este jovem menor fala ao seu advogado.
– Não é assim! Isto não vale de nada, não vale de justificativa caralho! – O advogado é experiente. Tem uma bela carreira, os casos que perdeu, talvez fora pra pegar dinheiro do outro lado da moeda sabe, digo, falo dele apenas como velhote de quase trinta anos na área, seu cabelo branco de corte curto, seu rosto liso de barba feita, seu uniforme: gravata vermelha, terno escuro, calça escura, sapato escuro, sinto escuro e camisa branca.
– Que se foda! – Com um soco na mesa continua – Matei aquele filho da puta mesmo!
– Matou... Matou! Que legal... E agora filho da puta? E agora caralho! Olha onde você tá porra, você acha que foi fácil entrar aqui pra conversar com você? – O jovem está na delegacia para o adolescente infrator: DAI.
– Você é meu advogado, dá um jeito... – Diz ele sorrindo.
– Advogado e seu pai! Você é um moleque burro! Porque não pediu para mudar de escola caralho? Mudar de sala...  Por que você tinha que mexer na minha arma? Por quê? – Agora já não é só advogado. Agora o instinto de proteger sua cria falou mais alto. Agora é aquele momento em que ele talvez sentiu dó, pena, demonstrou seus sentimentos, sentimentos de pai...
– Eu vou pedir para mudar de escola pra quê? Pra mãe não me levar pra escola e, eu ter que pegar ônibus? – Filho único. Dezesseis anos e uma vida de muita loucura, os cambau, só se abre com sua mãe, parece, querer quebrar esse poder do seu pai, esse poder de conhecer, de encontrar uma brecha, uma fenda da lei. Isto sempre separou os dois.
– Mais você é um viado do caralho mesmo né! Que filha da puta... Eu vou te encher de porrada! – O tempo todo estava o advogado e pai, junto à porta, em sua frente uma mesa quadrada de madeira com cadeira junto a ela e ao outro lado da mesa seu filho, sentado na cadeira com suas mãos sobre a mesa. O pai está furioso e não se contendo, avançou por cima da mesa e segurando nos cabelos lisos e negros do jovem, puxo-o para baixo, fazendo com que a cara lisa do jovem batesse contra a mesa. O impulso, o movimento rápido e força na qual o rosto do jovem se choca contra a mesa, faz com que seu nariz comprido e fino, sangre. Seus lábios finos que antes se movimentava com leveza ao falar, depois da pancada, começam a tremer. Seus olhos castanhos que antes pequenos, agora grandes e vermelhos...
– Vai toma no cú, porra... Não vai dá merda não meu! Eu sou menor caralho, não vai dá merda não...– Após ouvir essas palavras que saem apressadas da boca tremula, o advogado se recompõe voltando ao seu lugar.
– Não vai dá nada? Já deu seu desgraçado! Você acha o quê? Mata a porra de um professor e acha que não vai dá merda? Viu o tanto de TV te espera lá fora? Você viu? Você tá fodido porra! – O jovem matou o professor no primeiro tempo de aula, o momento certo do relógio ainda é confuso. Alguns primeiros jornais do dia passaram a notícia, porém, a maioria das emissoras passou a transmitir ao vivo da escola e da delegacia. No início falavam em morte de um professor e vários alunos, agora já se sabe que só o professor morreu. O jovem teria dito: – O seu viado filha da puta, vou socar seu rabo de bala – e logo após dizer essa frase, descarregou o revolver 357 magnum do pai. Após atirar colocou o resolver na bolsa e teria saído da sala, sendo controlado por outras pessoas até a polícia chegar ao local. Ele em todo momento pareceu frio e quando viu que estava sendo filmado, sorriu.
– Fodido nada! Você é advogado vai dar um jeito, a gente compra esses putus aí! – O advogado, não sei por qual motivo estava com a cabeça baixa, mais quando ouviu: “ a gente compra esses putus aí” olhou para seu cliente e disse:
– Compra? Vou te dar uns tapas! – Só se aproximou, mas, não o fez – Nem pense nisto, nem fale isto caralho! Você me dá nos nervos!
– Ele era um homossexual que odiava nós homens porque nenhum de nós queria comer aquele viado. E ele odiava as mulheres porque não era uma, não era uma mulher bonita, sensual, não era mulher! Era um viado que ficava enchendo o saco na sala de aula, dava notas baixas pras meninas bonitas da sala... A Lorena mesmo, aquela gotosa que tracei em casa, lembra?
– Sei...
– Então... Deu nota baixa pra menina, fica falando merda pra ela porque ela é gostosa! E ele com aquela cara de viado, filho da puta tentava se esfregar como verme nos moleques! Ele veio pra cima de mim porque eu fui defender a Marcinha, aquele filho da puta colocou o dedo na minha cara e ficou me olhando com aquela cara de bixa, filha da puta! Matei mesmo e mataria de novo! – O jovem parou de tremer seus lábios, fala com ódio nos olhos, agora fala cuspindo, seu rosto em caretas se torna feio pronunciando as palavras.
– E você resolve isto atirando no viado... Que porra! – O advogado acaba de falar e bate com as duas mãos na mesa, agora fica nesta posição; curvado com as mãos na mesa, olhando nos olhos do jovem.
– É caralho! Atirei mesmo naquele putu! Filho de uma égua, viado do caralho! Queria passar a mão no meu pau e depois veio colocar no dedo na minha cara? Morreu! Morreu aquele filho da puta! – Ao falar isto ele volta seu corpo pra trás, encosta ele todo na cadeira e tenta ainda mais se afastar.
– É e agora? E agora pra eu tirar você daqui caralho? – As mãos saem da mesa, ele caminha até a porta, coloca a mão direita nela e abaixa sua cabeça olhando o chão.
– Sei lá pai... Você é advogado eu sou menor e temos dinheiro! – Diz olhando a sua volta, como se procurasse uma saída entre as paredes que o cerca.
– Filho da puta... Acha que é assim né? – Levando a mão direita ao trinco da porta ainda sem se volta pra trás.
– E não é caralho?! Agora fala pra esses porcos sanguinários não colocar a mão em mim e fala pra mãe que só mudo de escola se ela me levar, não vou pegar buzão!

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