segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Ferrari

     Simões dirigia pela Avenida Brasil quando encosta seu carro e desce para contemplar seu sonho: – Nossa... Spider 458. O motor é V8 de 90 graus, com 4499 CC. A potência máxima é de 570 CV e a aceleração de 0 a 100 km/h é de 3 segundos, sendo a velocidade máxima de 320 km/h. O câmbio é automatizado, de dupla embreagem e sete marchas. O ronco do motor é exaltado e o chassi retrabalhado. Meu sonho aqui na minha frente. Um sonho de R$ 1.950.000. – Simões pensa passando a mão pelas curvas da Ferrari, dentro da mesma no passageiro uma morena de vestido vermelho combinando com a cor da Ferrari, mas, isto não agrada Simões. Pra ele o carro com essa morena ficou feio na verdade, perdeu toda a potência, o esplendor. Ele é mais uma loira com o cabelo solto em um vestido amarelo e batom vermelho. Assim... Uma quase senhora Geisel. – A senhora Geisel sim é adequada para sentar ao meu lado no banco do passageiro! Falo senhora Geisel porque foi assim que a conheci...– A história de Simões e senhora Geisel é interessante e depois da senhora Geisel, só senhora Geisel é mulher de verdade. Tudo começou quando o pai de Simões comprou um sítio (o motivo pelo qual o pai comprou, contarei mais tarde no decorrer de minha narrativa) e numa das viagens Simões conheceu a vizinha do sítio ao lado, senhora Geisel, era e é assim conhecida por todos ali da redondeza. Ela alemã gorda, de corpo forte, de braços gordos e redondos como suas pernas, seu rosto e pescoço que se dobram em duas ou até três camadas de pele e gordura. Quando foi apresentado pra ela, ele estava na casa dos dezessete anos e ela com mais de vinte e cinco. No dia ela estava no curral e derrubou uma vaca pegando a mesma pelos chifres. (Eu leitor, acredito em amor à primeira vista e com certeza foi amor à primeira vista!) E lá estava ela com aquelas botas de borracha, calça e camisa sujas de fezes e lama. Ela olhou pra ele passando a mão suja de lama no rosto, ele correu até ela, tirou sua camiseta e passou no rosto dela. Ela sorriu com isto e seu marido senhor Geisel que estava por perto o empurrou, fazendo com que ele caísse de bunda dentro do cocho dos animais beberem água. Depois disso ele ficou de castigo e enquanto chorava de ódio ou amor reprimido seu pai falava muito, coisas como: – deixa de se moleque rapaz e se o Geisel mata você? Esse povo de sítio, tudo é louco! Depois disso ele volto pra cidade, passou três semanas sem ir ao sitio até que na quarta semana foram todos, sua família. E lá andando pela mata na direção do sítio do vizinho viu entre as árvores a senhora Geisel que com um motosserra nas mãos cortava lenha. Ele foi se aproximando lentamente para ver se o senhor Geisel não estaria ali por perto, cuidando de sua amada. Entre uma arvore e outra foi se aproximando cada vez mais e mais quando se deu por si ela estava olhando pra ele. No início ficaram assim um olhando pro outro sem dizer nada, ela sorriu e ficou ainda mais bonita. Mas continuo seu trabalho, cortou talvez mais três ou cinco lascas de pau e ele lá olhando pra ela. Quando acabou seu serviço desligou a motosserra e foi na direção de Simões. – O moleque vai ficar aí olhando pra eu é? – Ele sorriu. Vai saber por qual motivo, talvez o sotaque diferente do seu, carioca.
– Desculpa! Fiquei observando como à senhora trabalha bem com esse motosserra. Acho até perigoso demais pra senhora, quem deveria fazer é seu marido, ele não está?
– Geisel?! Geisel foi pra cidade e quem faz sempre esse serviço sou eu mesma...
– Entendo. A senhora é muito bonita, não deveria machucar essas mãos que me parecem macías.
– Você é moleque mais fala bonito. Gostei do cê sabia? Entra em casa que eu vou fazer um café e enquanto faço vamo conversar mais, assim eu conheço melhor o cê.
– Tudo bem – Seria o dia de sorte de Simões, pensava ele. Então entraram e enquanto ela fazia o café, colocou duas variedades de bolo na mesa. A conversa do jovem Simões foi sobre como sua cidade é linda, sobre as praias, os pontos aonde todos vão quando visitam sua cidade. Ela ficou com seus olhos azuis brilhando ouvindo a conversa do Jovem. Só sabia falar que o moço conversa bem, é educado, estudado e bonito. Simões era todo de cantadas, uma em cima da outra pra senhora Geisel. Ela sorria tímida e dizia: – o Senhor fala bonito. (A melhor cantada leitor, faço questão de compartilhar! Foi sua última e matadora.) Depois que terminou o café e comeu bolo, ele se levantou e ficou de frente com ela. Passou a mão no cabelo dela, tirando uma parte da franja sobre o olho e disse: – Você faz um bolo maravilhoso. Ele é macio, cheiroso e muito saboroso, como à senhora deve ser quando faz amor... – Ela ficou olhando pra ele sem entender essa comparação, talvez até hoje pense nestas palavras e ainda busca entende-las ou talvez nunca tenha pensado, nem mesmo no dia em que ouviu, mas, o certo é que depois de falar essas palavras ele a beijou! E ali mesmo na cozinha foi sua primeira vez, onde ficou entre aquela pele dura e gorda, na qual se esforçava para permanecer em cima dela. Ela respirava ofegante enquanto ele olhava seu rosto suado. E depois disso ir para o sítio tinha outro significado, na verdade, mulher passou ter outro significado, outra forma de ser vista e sentida. Simões é homem e como o sítio era uma vez ou outra no mês, no ano, ele passou a buscar mulheres pelo Rio como sua amada da primeira vez e nunca, nunca saio com outra mulher que não fosse parecida com ela, que não tivesse um corpo igual da senhora Geisel... E foi por isto que não gostou de ver uma morena dentro do carro de seu sonho. Agora já até parou de passar a mão, já volto pra seu carro e batendo com a cabeça no volante ele pensa: – Ah! Se eu não tivesse perdido todo aquele dinheiro, se eu não tivesse sido mandado embora pelo meu pai. Eu iria colocar uma senhora Geisel pra rodar comigo com seu cabelo solto ao vento e iria rodar e rodar só parando pra eu ficar olhando ela comer, comer uma pizza, duas pizzas, três pizzas todas sozinha como, Soraia; pedir duas porções, comer uma sozinha e ainda metade da minha, e ainda eu iria ver em seus olhos que deseja mais, como Rafaela; comer cinco batatas recheadas e depois sorrir com os lábios vermelhos de ketchup e depois... E depois, iriamos fazer amor! Ver aquele corpo enorme de prazer, mas, e o agora? Agora estou aqui nesse carro popular indo atrás do meu irmão... (Simões fez uma, vou colocar assim para o leitor: CAGADA FEIA! Que coisa nosso herói fez? Só acabou com um presente de milhões! Sim, de milhões!) Simões depois que se formou assumiu a primeira empresa de seu pai, a que fez toda sua família ficar rica e depois de dois anos a frente da empresa acabou com tudo!
     Na manhã do mesmo dia na empresa de seu pai que no elevador conversa com o mesmo:
– Como pode ser tão burro! Você não é filho meu não! Não pode, não pode ser!
– Mais pai... Estava tudo certo! Iria dar certo...
– Nada, não tem nada certo! Nada deu certo! Se você tivesse falado comigo antes eu não tinha deixado você fazer essa burrada, que coisa, como você consegue falir minha empresa?
– Pai entende... Eu dupliquei o valor dela de mercado no primeiro ano, agora iria duplicar de novo! Ela iria quadruplicar em dois anos!
– Que quadruplicar o quê... Olha o que você fez. Bom... Essa empresa era um presente meu pra você e agora você conseguiu acabar com ela, agora não quero nem saber de você em casa, está ouvindo? Não quero! Você vai morar em outro lugar, se vira... Como pode ser tão burro?!
– Mais pai... Eu não tenho pra onde ir, eu sei que fiz uma besteira, mas, os números, os números estavam ao meu favor...
– Como? Se você tivesse me falado não tinha deixado você fazer isto, mas fez e, agora não quero saber de você. Pega suas coisas e saia de casa, se você fosse como seu irmão, mas não... Agora se vira, se vira!
     Quando deixou a empresa do pai Simões só tinha seu irmão para recorrer. Entrou em seu carro e rumou ao sítio onde ele mora. Na Avenida Brasil passou pelo seu sonho, agora já dirigindo pensa: – Meu irmão... Ah! O meu irmão... Ele sempre foi o queridinho de meu pai mesmo, sempre foi! Lembro-me de quando eu tinha de sete pra oito anos e ele com seus animais. Em um ano ganhou mais animais que um zoológico todo! Primeiro um cachorro, depois um gato, depois um coelho, hamster, tartaruga e até uma cobra! Certa vez entrei no quarto e ele esta na cama ao lado (O leitor percebe que eles dividiam o mesmo quarto, naquele tempo o pai estava começando com sua primeira empresa, essa mesma que nosso herói acabou de falir) olhando pro teto com o cobertor até o peito e os braços cruzados no peito, imóvel, olhando pro teto sem nenhuma expressão em seu rosto e quando eu puxo meu cobertor, um bote, um bote e quase que ela pega meu braço. Gritei e sai correndo e ele ria, ria e ria... Meu pai chegou e olhou para minha cama e para ele que ria e disse: – Pega essa cobra com as mãos e leva lá pra fora, vou arrumar uma caixa, alguma coisa pra colocar ela. Se você faze isto não deixo você de castigo! – E ele fez! Pegou com uma mão perto da cabeça e com a outra no rabo e saio com ela do quarto sorrindo enquanto eu estava abraçado com minha mãe ainda chorando. Meu pai passou por mim e disse: – Seu marica! – Depois de alguns anos meu pai foi ficando rico, comprou um sítio e passávamos muita parte do nosso tempo por lá. Não era grande, mas, me divertia muito pelos córregos, andando pela mata como caçador. Meu irmão depois disso ganhou mais animais. Eu pensava, ele vai ser veterinário, só pode... Mas que nada... Ele é engenheiro florestal.
     Depois de horas viajando e pensando ele chega ao sítio e encontra seu irmão deitado de barriga pra baixo e com o lado direito do rosto junto ao chão fresco. Seu irmão está deitado no início de uma grande área de terra vermelha e parece querer ouvir algo dela.
– O que faz aí deitado?– Pergunta Simões.
– Tenho uma pergunta pra você...
– Se for sobre o que aconteceu com a empresa, eu já estou cansado disso!
– Não! Você já comeu hambúrguer de banana?
– Como?
– Hambúrguer de banana, você já comeu?
– Não... Acho que nem existe hambúrguer de banana.
– Pois então! É de carneeeee. Carneee que precisamos! Esses viadinhos frescos que se danem! Temos que criar boi! Temos que comer carne e por isto que estou aqui, vou plantar capim, e colocar mais gado! Esses viadinhos que se fodam todos! Eu? Eu vou comer carne!
– Tá. Tudo bem... Em... Vou passar uns dias com você aqui no sítio!
– O pai sabe disso?
– E nem precisa saber! Vou ajudar você por uns tempos aqui...
– Você? Me ajudar? Tá bom... Você é como esses viadinhos frescos que tem por aí... Só comem ração!
– Esquece isto...
– Você não vai aguenta um mês aqui! Sem academia, suas bombas... Porque isso aí é tudo bomba! – Fala seu irmão agora já em pé com a cara e as roupas sujas de terra vermelha. Ele sempre tirou onda do irmão por fazer academia e ser todo bombado...
– Esquece... Aqui mudou muito desde que você veio pra cá... Tem quase tudo aqui
– O que tem aqui é pra uso do trabalho e já que está aqui e vai me ajudar, vamos deixa de falar, tira esse terninho que mamãe deu pra você e vem me ajudar.
     O primeiro dia como ajudante e morador do sítio foi difícil. Às quinze horas, Simões já estava todo em suor. E chegando a noite dormiu cedo e como bebê, nem viu. Já pelas cinco da manhã seu irmão o acorda com chacoalhão e socos. Simões acorda meio atordoado. Seu irmão já passa os serviços para serem feitos no dia, seu primeiro, era ir tirar leite de três vacas. Enquanto o irmão de Simões estava aguando suas plantas, que eram muitas, ele foi ao curral dominar as vacas e tirar seus litros de leite. Ao chegar ao curral com a manhã ainda escura, Geisel estava saindo com dois baldes de leite, um em cada mão. Ao se cruzarem na estrada, o encontro soou como um susto. Mas, param um de frente ao outro e conversaram normalmente, como dois moradores que se cruzam em uma estrada qualquer. O Assunto foi coisas como: Como estão as coisas? Quanto tempo! E como está sua família? E a sua? Estou tirando leite aqui, meu curral quebrou e estou consertando... E blá blá blá... Na conversar Simões soube sobre o senhor Geisel que sofreu um acidente, algum tempo atrás ele caiu do cavalo e machucou profundamente sua coluna, coisa de o faze ficar de cama, quase imóvel. Simões tem bom coração, mas, essa notícia foi uma ótima em semana de erros passados. Ele pediu ajuda da senhora Geisel, disse que já fazia anos que não pegava nas tetas das vacas, talvez até fosse machucá-los ao tirar leite. Ela é claro, o ajudou e enquanto ela tirava o leite pra ele, ele sentou na porteira do curral e ficou olhando seu primeiro amor, agora ainda mais gorda e mais forte. Eles trocam olhares e sorrisos...

Nenhum comentário:

Postar um comentário