terça-feira, 25 de dezembro de 2012

O Hotel

     Eu sou um vendedor e tenho várias histórias para contar sobre minhas andanças pelo meu país. Passo maior parte dos meus dias nas rodovias e em comércios pelas cidades. Estou há muito tempo no mercado e por isto tenho uma rotina de viagens onde quase sempre estou nas mesmas cidades com os mesmos comerciantes. O lugar onde se passa esta minha história é uma cidade que visito poucas vezes ao ano. Ela é uma mega cidade que ainda tenho muito que explorar, mas, por eu ser um pequeno vendedor – mesmo com anos no mercado – paro em algumas burocracias do comércio que só quem está por dentro sabe do que estou falando.

     A história não é sobre falcatruas e sim sobre um hotel modesto de uma rua de pouco movimento cercado por casas antigas e comércios antigos. Cheguei ao Hotel por acaso, estava procurando por uma loja e acabei por perder muito tempo pelo bairro sem conseguir localizar à loja. As pessoas da qual procurei ajuda pelas ruas, não me ajudaram. Já era umas sete horas e como eu não gosto de viajar a noite, resolvi ficar por ali mesmo e no outro dia pela manhã talvez eu voltasse a procurar pela loja ou iria seguir minha rotina.

     O hotel é bem velho, suas paredes estão desbotadas e apenas um letreiro de neon antigo informa que ali é um hotel. A garagem é muito pequena, cabem poucos carros e não tem portão ou segurança o que me deixou com um pouco de medo ao deixar meu pequeno caminhão tão exposto. Na recepção fui atendido por uma mulher de uns quarentas anos, de estatura baixa e bastante gorda que conforme falava, suava o rosto todo. O ventilador de frente (distante e de um barulho estranho) pregado na parede e o outro dentro do balcão parecia não amenizar sua situação. O balcão estava bem bagunçado com papeis, umas listas telefônicas e um livro do Paulo Coelho de nome estranho Maktub com o marcador já pelo final. A recepcionista usava um short jeans e chinelos, sua camiseta de um rosa desbotado estava com manchas de suor. Ela foi atenciosa, disse que eu tinha dado sorte porque aquele era o último quarto disponível do hotel. Ela não quis saber muito, só perguntou meu nome, não olhou documentos ou coisa do tipo, depois de me passar as chaves disse que na sala da recepção também era usada para tomar café da manhã que eu já tinha percebido isto ao entrar pela porta e ver umas três mesas com cinco cadeiras em cada mesa e ao lado do balcão uma cadeira de descanso de fios.

     Ao sair da recepção caminhei por um corredor estreito e muito longo cercado por quartos a minha direita e um muro muito alto na minha esquerda. Esse corredor vai até o último quarto de número dez que no fim uma escada leva ao segundo andar somando mais quartos. O quarto em que fiquei era o de número cinco, bem simples com uma cama de casal, uma geladeira pequena e velha e um armário de madeira de duas portas. Ao entrar liguei o ar e a TV que fica pregada na parede. Depois que me organizei, liguei a geladeira que fez um barulho estranho, barulho por ser antiga demais. Ao entrar no banheiro me senti muito alto, maior do que realmente sou. Ao usar a pia tive de ficar completamente curvado, quando fui tomar banho caiu mais água na parede do que em mim. – O banheiro foi projetado para anões, só pode! Pensei comigo mesmo com todo aquele desconforto.
      Enquanto assistia TV deitado na cama as horas passaram. Era umas nove ou nove e meia quando fui sair pelo bairro procurando por alguma lanchonete ou restaurante.  Passei pela recepção e ao chegar no balcão uma senhora de uns oitenta à noventa anos estava deitada na cadeira de fios com um vestido branco, seus fios do cabelo também branco da um aspecto de palidez em seu rosto. Eu fiquei por um curto espaço de tempo olhando pra ela e ela parecia não respirar. Entreguei as chaves para a recepcionista e sai com meu caminhão pela rua. Não precisei procurar muito e acabei por entrar em uma lanchonete de uns japoneses.

     Ao voltar pro hotel a recepcionista ainda estava usando a mesma roupa e continuava a suar muito. A senhora que outra hora estava na cadeira de descanso, talvez já tivesse voltado ao seu quarto deixando a cadeira vazia. Quando caminhei pelo corredor passou um menino por mim correndo. Falei pra ele ir de vagar que não precisava correr, ele nem olhou para trás, talvez nem tenha escutado ou fingiu não escutar e continuou subindo as escadas ainda correndo.

     Entrei no quarto e me preparei para dormir. A geladeira ligava e desligava de cinco em cinco minutos fazendo aquele barulho estranho. Fiquei da cama assistindo TV até que eu dormisse. O sono veio rápido, em poucos minutos eu já estava dormindo.

     Agora vem a parte muito estranha daquela noite. Como eu disse dormi rápido. Deixei a TV ligada e deitei virado para à parede. Com o passar do tempo tive uns sonhos estranhos, sonhei que estava em uma festa com muitas mulheres onde dançávamos e bebíamos muito. Ao lado de onde dançávamos, casais faziam sexo e outros ainda se beijavam. Parei de dançar e fui passear pelo local, conforme andava todos me olhavam, uns riam de mim e outros faziam caretas, caras feias. De repente – como sempre é em sonhos – eu estava em meio a uma briga. Todos me acusavam de alguma coisa e passaram a correr atrás de mim. Corri muito e tentei me esconder por entre escombros que apareceram do nada e mesmo assim eles me encontraram. Quando eu estava apanhando por toda aquela gente acordei, acordei e virei para a janela e a porta que estavam em minha frente. Ao virar e levantar meu corpo um menino estava ao lado da cama em frente ao armário. Fechei os olhos e abri novamente e ele continuava ao lado da cama me olhando. Não aguentei e dei um soco com os olhos fechados. Quando abri meus olhos novamente não tinha mais nada ao lado da cama. Senti uma dor no meu ombro, depois umas dores em partes do meu corpo. Virei minhas costas para a parede e percebi que minha TV estava desligada. Procurei pelo controle e ele estava no meio da cama, o que me fez pensar que talvez eu tivesse rolado sobre ele e desligado a TV e essas dores causadas pelo colchão por ser duro junto ao controle no qual fiquei rolando em cima. Liguei a TV novamente e fiquei assistindo pra voltar o sono. Fiquei assistindo por alguns minutos e do nada a luz do banheiro acendeu. Quando a luz acendeu levantei novamente meu corpo e sentei sobre a cama ficando cerca de alguns segundos, talvez um minuto ali parado olhando para a porta meio aberta do banheiro e a luz acesa que depois apagou sozinha. Confesso que fiquei assustado, levantei correndo e acendo a luz do quarto. Olhei o relógio e eram três horas da manhã. Só tive coragem pra entrar no banheiro depois de ficar assistindo TV até às seis da manhã com a luz acesa. Às seis e meia, sai do quarto e entreguei a chave e o valor do quarto para outra recepcionista mais nova e bonita, não tomei café com os outros hóspedes que me pareceram todos doentes. Só queria ligar meu pequeno caminhão e voltar para minha rotina.

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