domingo, 25 de novembro de 2012

O observador do prédio em frente - II


     Nove horas da manhã e Davi acorda com o sol que invade a janela lateral do seu apartamento no terceiro andar. O sol queima seus pés como despertador natural de seu quarto. Davi levanta e abrindo a janela fica observando a rua abaixo que não tem nenhum movimento no domingo. Os domingos são sempre desanimadores para Davi, ou acorda de ressaca ou acorda sem motivo nenhum para se pensar em fazer alguma coisa. Acaba por assistir Tv o dia todo ou fica no computador. As horas passam de vagar. Seu almoço é alguma coisa industrial e sua janta, nem ele faz ideia do que irá comprar.
     Quinze horas e alguns minutos.  Davi estava cochilando no sofá na sala com a Tv em algum canal sobre alguma coisa.  Gritos acorda Davi. Ele olha da janela de seu quarto e uma mulher desesperada corre pela rua em direção ao seu prédio e pouco tempo depois o porteiro de seu prédio vai ao apartamento de Vitória e sai do mesmo falando ao celular. Davi fica em sua janela até que vários carros da polícia cercam a rua e o número de pessoas em frente aos prédios começa a aumentar, ele não aguenta de curiosidade e desce para ver o que está acontecendo. Ao chegar à rua ele olha para uma multidão de pessoas e a primeira mulher que ele viu saindo aos gritos, com suas mãos ao céu, ainda está chorando e falando o tempo todo abraçada com Luzia: – O que fizeram com minha menina? – O que fizeram? – Por que Deus, por quê? Davi se aproxima e pergunta o que aconteceu. Pergunta para três pessoas que não conhecia e essas três falaram a mesma coisa: – Mataram Vitória! Davi coloca as mãos na cabeça e corre para entrar no prédio. Na porta é parado por alguns policiais que não deixa ninguém passar. Ele fala que quer ver Vitória, que conhece ela, que é seu amigo. Nisto o carro do IML chega e os profissionais entram no prédio. As únicas pessoas que viram o corpo de Vitória foram os profissionais, o porteiro e a senhora que chora sem parar, que tempo depois Davi soube que ela é mãe de Vitória. Entre as pessoas que cercam o prédio, o porteiro conta como encontrou o corpo, conta para todos e todos fazem questão de ouvir dele sobre a posição do corpo, os cortes, o sangue preto e o feto, ele diz feto e não bebê, e de como os olhos de Vitória estavam horrivelmente abertos. Davi para de ouvir e sai em direção ao seu prédio. Enquanto caminha passa mais uma vez pela mãe de Vitória que entra no carro da polícia. Ela estava muito abalada, Luzia o tempo todo ficou ao seu lado.  Ele olhou para ela e abaixou a cabeça correndo sem parar até o elevador de seu prédio. Quando entrou e apertou o botão de seu andar, colocou suas mãos na porta fechada e ficou com parte de seu corpo inclinado pra baixo. A porta se abre, ele levantou-se e sai caminhando com passos lentos até a porta do apartamento, na mesma demorou em encontrar as chaves no seu bolso, quando encontrou, demorou também para conseguir encaixar a chave no lugar certo. – É como se eu estivesse bêbado! Passou pela sua cabeça. Depois que abriu a porta o barulho de várias sirenes voltaram ao seu máximo, ele correu até a janela e a fechou com tanta força que após ela se fechar, ele foi jogado de costas ao chão. Ele caiu e ficou. Nisto correu vários minutos enquanto ele nada se movia no chão de barriga pra cima e os braços abertos. Pela sua cabeça passava várias coisas, depois de muito olhar para cima, ele encolhe seu corpo em posição fetal com seus joelhos dobrados, leva suas mãos os olhos e passa apertar fortemente enquanto pensa consigo mesmo: – Eu quero chorar, eu quero chorar! Mas neste tempo todo não chorou, o que o fez sentir raiva, sentiu uma coisa horrível dentro de si, bateu com as palmas de suas mãos no chão, bateu até que elas doessem, depois de um tempo parou e passou a olha-las e elas estavam vermelhas. Passou alguns segundos olhando para elas até que um grito saiu pela sua boca que se abriu e depois que o gritou cessou, passou a vomitar. Esse primeiro vômito foi tão inesperado e rápido que nem o sentiu saindo pela sua boca, já na segunda vez em que vomitou e as outras tantas eram como se alguém estivesse puxando tudo aquilo que saia de dentro de si para fora. Davi depois que vomitou, levantou-se e foi ao banheiro. Parou de frente ao espelho e pensou:  Eu tentei chorar! Eu desejei chorar! Eu queria ver minha tristeza, meu sofrimento em minhas lágrimas. Mas, eu devo ter chorado muito quando criança! Devo ter chorado por bobagens, que essas bobagens não mereciam meu choro, eram apenas bobagens! Agora me tornei forte, não consigo nem mais chorar. Agora sou homem! Agora não choro mais e eu desejei chorar por ela... Eu tentei chorar por ela e ver escorrer dos meus olhos lágrimas, mas agora sou realmente homem e não consigo chorar!
      Davi pensou tudo isto parado olhando sua imagem no espelho. Seus olhos castanhos nem vermelhos estavam. Ele tomou um banho na água quente e depois foi ao seu quarto limpar todo aquele vômito, depois que limpou ficou certo tempo sentado com um copo d’água sobre a mesa na cozinha. As horas passaram de vagar, em nenhum momento Davi olho para o relógio, só percebeu que muito tempo já tinha se passado depois de tanto refletir na mesa com toda sua cozinha escura, todo seu apartamento estava em silêncio e escuro. Ele levantou-se e sentiu que uma de suas pernas estava dormente, andando de vagar, chegou-se em sua cama e deitou-se. Sua noite foi agitada, teve terríveis pesadelos, sonhando com Vitória que aparecia em sonho pedindo socorro e ele lutava contra um homem mais forte que ele, que o deixava caído de joelhos no chão não conseguindo salvar Vitória. Depois de certo tempo acordou com frio, com seu corpo suado e tremendo. Ele levantou e foi pegar uma manta e lençol para cobrir-se e voltar a dormir. Dormia cinco minutos e mais pesadelos, pesadelos que o fazia despertar de minutos em minutos, até que não aguentou mais, ligou a Tv. Segurou-se acordado o quando pode, mas, depois de alguns minutos caiu em sono novamente e ficou assim, dormindo e acordando até às seis da manhã quando ligou para seu Tio que o liberou para ir ao médico ou aonde quisesse ir durante o dia, que buscasse ficar bem. Davi ainda tremia embaixo do chuveiro que depois do banho colocou uma roupa qualquer e saio pelo prédio, já na portaria pegou um táxi e foi à delegacia de polícia, teve sorte de encontrar o delegado na calçada junto com vários policiais que pareciam ouvir ordens do mesmo. Davi não conhecia o delegado, mas, ali no primeiro momento ao descer do taxi viu aquele homem pequeno, de terno, que todos os policiais estavam ouvindo, não teve duvidas e no primeiro momento que ficou próximo tentou agarrar o delegado que percebeu Davi antes e o jogou contra a parede da delegacia sacando sua arma. Davi assustou-se, fechou seus olhos e disse que estava buscando apenas justiça. Os policiais cercaram Davi que cai sobre o chão e passa a tremer. Todos olham para ele sem dizer nada, ele ergue sua mão direita e diz:
 Justiça! Eu quero justiça!
     Após dizer isto, desmaiou-se.  Ali mesmo no chão pelo lado de fora recebeu o atendimento dos bombeiros. Todos ficaram de olho nele. Quando ele acordou ficou mais assustado com a delegacia que estava muito agitada, talvez seja sempre assim, mas, essa é a primeira vez de Davi em uma delegacia. Ele olhou para todos e quando o pegaram e o colocaram sobre a maca para encaminhar para o hospital, ele gritou:
 Não! Eu não vou até que peguem quem matou Vitória, minha pobre Vitória, mataram a pequena! Mataram a pequena e seu pequeno bebê!
     Não deram ouvidos, já estavam todos saindo de perto para que o Davi fosse levado ao hospital. Perto da ambulância, Davi grita mais uma vez:
 Eu sei quem matou ela! Eu sei! Eu sei, eu o vi nos meus sonhos, eu vi aqueles, aqueles olhos pretos, aqueles mesmos olhos pretos, eu vi! Eu vi!
     O delegado que estava caminhando para dentro da delegacia e ouve os gritos de Davi. Voltou antes que fechassem as portas da ambulância e disse:
 Esperem! Esperem! O que você está falando?
Não de ouvidos senhor. Ele está delirando, é normal com a febre.  Disse um dos que levava Davi.
Espere. Mesmo assim, deixe ele falar... – O delegado entrou na ambulância e sentou-se perto de Davi.
Eu vi ele... Ele foi comprar flores! Não! Espere... Não! Ele foi montar o berço. O berço do bebê, ele foi montar eu o vi! – Davi tentou sentar na maca, mas, não deixaram. Sua voz está fraca, de todas as palavras que falou, poucas saíram inteiras sem corte no início ou no fim.
Eu não disse, ele está louco! Vamos dar um calmante pra ele.
Esse que você viu, como ele é? – Perguntou o Delegado que colocou seu ouvido junto à boca de Davi.
Ele é mo-re-no, al-to e for-te... Tem muito barba. Os olhos, os... olhos... São pretos, pretos e frios!

     Ao ouvir Davi, o delegado chamou um policial de dentro da delegacia. Esse chegou-se perto da ambulância e ouviu o delegado que pediu para que ele trouxesse o relato de uma testemunha da terceira vítima. Ele trouxe e o delegado leu as mesmas características que Davi estava falando. Ele perguntou se Davi sabia mais alguma coisa, o nome do homem ou alguma outra informação. Davi ficou por certo tempo olhando para uma luz no teto da ambulância. O delegado o chacoalha e ele volta a si. Olhou para o delegado e disse lembrar-se de uma coisa, talvez o nome da loja e ao falar isto olhou para suas mãos e disse o nome da loja: Menino Deus. Após dizer, passou a tremer em convulsão, seus olhos virou-se e passou a enrolar a língua. Os bombeiros correram com Davi para o Hospital. O delegado agora tem informação necessária para pegar o Serial Killer. O delegado que antes de Davi chegar estava passando certas ordens, agora teve de mudar tudo. Nisto ele perdeu certo tempo, mas, correu até a loja para tomar as medidas necessárias para prender o montador/entregador. Ao chegar à loja, o delegado teve sorte do mesmo está ali e não ter saído para suas entregas diárias. Ali mesmo após receber voz de prisão ele disse que já esperava por eles, sabia que um dia eles viriam, só não sabia depois de quantas vítimas. Na delegacia o homem confessou todos os cincos assassinatos. Disse que só matou mulheres grávidas porque tinha perdido sua mulher há pouco tempo e ela estava grávida. Sobre o ritual de colocar os corpos como se estivessem em cruz e fazer os cortes da cruz virada de cabeça pra baixo, era uma maneira de protestar com Deus. Falou que sua mulher era católica quando ele a conheceu, que ele não gostava de ir à igreja com ela, mas, ela gostava de ir sempre, até que ao sair da igreja foi atropelada com o motorista que matou ela e seu filho fugindo do local. Depois disso, não aguentou mais esse Deus que tinha tirado sua mulher e seu filho e foi fazer isto contra todas as mulheres grávidas que encontra-se pelo caminho até que Deus fizesse ele parar. Seu ritual era sempre o mesmo, mata e depois lava as mãos, como se limpando para continuar matando.
     Davi ficou uma semana no hospital. Durante esse tempo só dormiu e falou muito pouco. Se teve pesadelos com Vitória não contou para sua mãe, que ficou a semana inteira com ele sem sair nenhum dia de perto do filho. Talvez com o tempo as coisas voltem ao normal se já não voltou após essa primeira semana.

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