terça-feira, 25 de setembro de 2012

O que acontece depois?

      Tarde de Sábado, dia 17 de Julho de 1993. Humberto sai correndo pela rua Rocha do bairro Roliço onde mora com os pais. Ele sempre corre até o clube onde joga futsal com seus amigos. A corrida pela cidade é saboreada com as músicas de seu walkman e com vários pensamentos, entre tantos o jogo do Internacional vs Grêmio pelo Gauchão. Quando criança sonhava em ser como Ruben Paz camisa dez – Quero jogar pelo Inter – Falava pelas várzeas quando criança onde jogava com seus amigos. Humberto agora está com vinte anos e já desistiu de ser jogador. Na parede de seu quarto há vários posters entre os de bandas de rock está o do Internacional campeão Gaúcho de 1982 autografado por Geraldão.
      Na Avenida do clube ele tira os fones e passa caminhar até o meio da quadra onde percebe uma agitação de pessoas formando uma fila que da entrada do clube subindo uma escada e passando pelo corredor, continua até o salão de bailes. O cabelo comprido de Humberto que balançam de um lado ao outro conforme a ordem de seus passos. Ele passa ao lado da fila e na entrada do salão, nota vários quadros nas paredes e algumas esculturas no centro. Correndo os olhos sobre os quadros, um lhe chama atenção. O quadro esse na sua esquerda, na ordem crescente da entrada ao fim do salão, ocupa o terceiro lugar.  Ao lado direito  o segundo pela ordem retrata uma moça de vestido azul com uma gravata borboleta vermelha, com refrigerantes e bolo de chocolate sobre uma toalha florida ao chão. O quadro que o fez entrar no salão é a capa do disco Titanomaquia dos Titãs. Uma de suas bandas favoritas e também da artista que o fez, Priscilla.
 Humberto, vai ficar olhando ou vai jogar?  Disse Renato amigo de Humberto que passa rápido por ele em direção à quadra de Futsal.
 Já estou indo. Estou vendo aquele quadro ali, conhece? – Renato para e volta pra ver o quadro que Humberto aponta com seu indicador.
 Esses riscos coloridos?
 Sim! É... É a capa do Titanomaquia!
 Tita o que? Sei lá, eu vou indo!  Renato deixa Humberto e segue pra quadra.
 Oi! Com licença, você sabe de quem é essa exposição?  Pergunta Humberto a uma mulher saindo do salão.
 É aquela moça ali – Aponta sem ao menos parar.
 Obrigado!
      Humberto observa que perto da moça há várias senhoras que conversam entre elas. Atravessando o salão na direção da moça que parece que acabou de sair da aula de desenhos da pré-escola, onde as criancinhas brincam com as tintas manchando tudo por onde passam. Seu vestido que um dia foi branco de duas pequenas alças, agora se mostra com várias manchas de mãos, pés, enfim, várias manchas de tintas. Tudo se mostra colorido como suas meias até o joelho, que são listradas em cores. O all star de cano médio azul e seu rosto redondo de menina com grandes olhos, os ombros largos e magros como seus braços e pernas. Priscilla se mostra feliz ao lado das senhoras que conversam entre elas.
 Olá, eu sou Humberto...  Antes mesmo que Humberto continuasse sua fala, foi interrompido pela jovem.
 Oi Humberto! Você está bem? Está todo suado!
 Sim! É... É, eu estou bem sim! Vou jogar futsal na quadra do clube, aí...  Humberto é interrompido.
 Entendo. Gostou dos quadros, por isto entrou? 
 É... É na verdade gostei mais do Titanomaquia ali...
 aaaaah, então você conhece. Nossa... Eu já estava cansada de ficar dando explicação. “O que é isto? Por que isto? Meu Deus é isto mesmo?!” ...Vem cá, quero mostrar aquele ali pra você – Pegou Humberto pelo braço e sai puxando-o. Chegou em frente ao quadro no qual havia um anjo de joelhos segurando com as mãos uma flecha no peito esquerdo.
 Olha... E aí, gostou?
 É, é bem expressivo! Que quer dizer?
 Sabe... Esse é Eros, já ouviu falar?
 Claro que sim! Mas, por que desta maneira?
 E daí?! Eu quis fazer ele e gostei de ter feito ele dessa maneira, entende?
 Acho que sim. Sua exposição é sobre o que mesmo em?
 Não tem um tema sabe... Aqui tem quadros desde quando eu passei à pintar até esses que fiz enquanto ouvia Titãs. Não ligo pra tema, só coloco no pincel o que estou pensando naquele momento, por isto você pode ver esta escultura atrás de nós... É pegar a solda e os ferros e soldar, sabe?!
      As chapas de ferro tomam forma de um corpo de mulher com seios fartos como sua barriga em nada marcado por marteladas ou solda. É perfeitamente lisa, de uma sutilidade incrível. Sem marcas até mesmo nos dois pescoços que deles saem duas cabeças de mulheres em um único corpo perfeitamente soldado, batido e destorcido.
 Acho que sim. Então, eu vou lá jogar... É, é eu gostei deles! Parabéns! Eu vou indo...
 E você vai sem saber meu nome?
 Verdade... Desculpa! Como é mesmo?
 Sou Priscilla!
 Tudo bem Priscilla, eu vou lá...  Disse Humberto com seu sorriso perfeitamente longo, que ao passo de alguns segundos é petrificado até que ele vire as costas e sai.
      Humberto chega e o jogo já começou – Dois gols sai um, avisa Renato. Humberto fica assistindo ao jogo, mas, não pensa no jogo, ele está pensando na moça estranha que acaba de conhecer – Como pode ser tão menina, com aquelas meias até o joelho, seu vestido todo manchado de tintas, e aquilo com Eros, como pode colocar uma flecha em seu coração e deixa-lo de joelhos. – Humberto busca compreender o que acaba de ocorrer com ele – Eu nem peguei o endereço dela, poderia ser legal eu chamar ela pra fazer alguma coisa, não sei se volto lá, será que soaria estranho?!
Humberto, não vai entrar? – Avisa Renato.
 Já foi?! Já é... É minha vez?
 Sim! Entra aí... E tira à camiseta...
     Humberto jogou bem futsal como sempre o fez. Marcou alguns gols, e não saio até o final do tempo da requisição. Quando o jogo acabou, ele corre e se lava no bebedouro, todos seus amigos ficam esperando que ele volte e vá com eles ao bar do Rodolfo como sempre é. Humberto não volta e passa pelos amigos em direção ao salão parando em frente à porta e nota que Priscilla está mostrando o mesmo quadro que mostrara pra ele ao senhor de uniforme militar. Ele fica parado na porta olhando Priscilla que tenta de alguma maneira explicar aquele quadro ao senhor. O senhor é magro e alto de faces pensativas e muito sério. Quando eles passam para outro quadro, uma mulher bonita de meia idade com vasto cabelo negro, vem ficar ao lado do senhor. Humberto fica da porta olhando todos os movimentos rápidos das mãos de Priscilla. O senhor parece confuso e, é de se notar que não entende nada do que àquela moça fala e gesticula com as mãos. A mulher ao lado do senhor no uniforme parece amenizar a situação puxando-o pelo braço até uma mesa de doces. Priscilla para diante do casal e fica olhando sem dizer uma palavra. Humberto atrapalha quem entra no salão, por ficar esse tempo todo parado olhando, a fila quase não anda, uma senhora o cutuca com o punho fechado. Ele volta de seus pensamentos para onde está. Enquanto olhava, esquecera-se de si mesmo, ao voltar, abaixa à cabeça e vai em direção ao portão. Pega seu walkman do bolso e coloca os fones e sai caminhando pelo corredor – O que estou fazendo? Eu não pensei que entraria e pediria o endereço dela, o que fiz? Espera... ainda dá pra eu fazer isto, vou voltar! – Tira os fones e volta subindo as escadas.
 Oi Priscilla!  Disse Humberto chegando-se atrás de Priscilla. É de se notar que Humberto em nenhum momento seguiu pela fila, foi entrando todas às vezes sem se preocupar com isto. O que agora, algumas senhoras passaram a reclamar entre elas mesmas, o que na entrada do salão gerou o pequeno tumulto, mas, ninguém de dentro do salão parece se preocupar com este fato, pode se dizer que nem estão notando ou dando importancia para tal tumulto causado por Humberto.
 Oi! Oi Humberto. Então... Quer alguns docinhos? – Humberto apenas olha para mesa, fica um tempo olhando sem decidir qual doce pegar. O casal e Priscilla ficam olhando-o esperando alguma reação dele.
 Quem é Priscilla?  Disse o senhor que repara em Humberto de baixo à cima. O mesmo senhor militar que outrora estava com Priscilla olhando os quadros...
 É um amigo papai, vem cá Humberto – Priscilla pega Humberto pela mão e o puxa. Enquanto é puxado, Humberto começa balançar sua cabeça, como se cumprimentasse o Senhor.
 Não liga, aquele é meu Pai.
 É?! Entendo...
 Ele está em serviço. Mato-o para comer alguns doces com mamãe.
 Então aquela é sua mãe e seu pai?
 Sim!
 Por que do uniforme?
 Ele é Tenente. Vem cá, você veio conhecer mais sobre meu pai?
 É... Não! Quer dizer, não! Eu voltei porque iria pedir seu telefone ou endereço mesmo...
 Não vai mais então?
 É... Sim! É vou! Me passa o número e seu endereço...
Tá. Enquanto Priscilla corre para pegar caneta e papel, Humberto foi à mesa onde as senhoras e o senhor militar pegam doces. Ao chegar à mãe de Priscilla veio ao seu encontro:
 Pegue esse, esse aqui. Minha filha Priscilla adora esse docinho, assim como seu pai.
 Há é? É... Interessante.  A mãe da Priscilla riu com o jeito atrapalhado de Humberto.
 Como é seu nome meu jovem?
 É Humberto mamãe.  responde Priscilla  Aqui Humberto o endereço...
 E pra que você está passando isto Priscilla?
 Papai... Ele é meu amigo, por favor...
 Que isto meu bem, isto é coisa dos dois.
 É papai, ele é só meu amigo – Humberto ouviu tudo sem nenhuma expressão em seu rosto, girava com sua cabeça de um lado ao outro para olhá-los enquanto falavam – Esse é Humberto, essa é minha família: minha mãe; Rita e meu pai; Raul.
Prazer! – O Pai continua serio e a mãe se permite em pequeno sorriso para Humberto que lhe retribui com o mais largo e demorado.
 Agora vem... – Priscilla sai puxando Humberto pela mão ao centro do salão, mais uma vez voltando para mesma escultura de ferros.
 Então Humberto, por que não me esperou e foi lá com meus pais?
 Não é, é quê, eu fui pegar um doce. E seu pai não parava de olhar... Eu só quis chegar perto pra vê-lo melhor...
 Sei... Então vai me visitar?
– Sim! Vou sim. Priscilla, eu tenho que ir... Voltei para conseguir seu número, agora vou à casa do Nasi, temos de ensaiar...
– Tudo Bem! Vai mesmo que meu pai já está vindo em nossa direção. Tchau... – E ainda segurada pela mão de Humberto, Priscilla o beija em sua bochecha direita.

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