quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Buldogue

– Oi! Você pode me ajudar?
– O Quê? Como isso é possível?
– Não se assuste. Não faça como meu dono...
– Como não assustar? – Fecho o livro que tenho em mãos. Levanto do banco assustado por ter escutado e conversando com um cão. Antes dele surgi não me lembro de nada, qual caminho peguei até esse banco, se caminhei por uma única estrada, se atravessei rios com pontes ou nadei até a outra margem, de nada me lembro. O agora é esse cão que fala minha língua e pede minha ajuda. – Será que dormir lendo o livro e tudo isto não passa de um sonho? – Me faço perguntas, penso em correr, me dou uns tapas na face, e tudo continua igual.
– Calma. Eu só quero voltar para casa. Estou com medo de voltar sozinho e também já passou muito tempo desde que sai correndo de lá. A primeira conversa com meu dono não foi boa! Por isto preciso que você convença meu dono a me aceitar de volta, ele se assustou muito e, eu só desejo um tratamento melhor. Quando falei com ele pra que passe a colocar três vezes ao dia minha ração e não só de manhã... – Ao ouvir isto, não me contive e caí na gargalhada! Como um cachorro sentando em suas patas traseiras e com um olhar triste me fala em ração três vezes ao dia? Não pude me conter! Mas, acho que ele não entendeu que eu estava rindo dele, pois, quanto mais eu ria, mais ele falava em mudanças para sua nova vida. – (...) Ele surtou. Pensou em estar louco por ouvir minha voz. Saio correndo, depois voltou com uma cadeira na mão. Pensei que fosse sentar pra me ouvir melhor, mas não! Ele a jogou contra meu corpinho pequeno e frágil. Sorte minha que fui mais rápido, fugi... Enquanto a cadeira ficou em pedaços ao chão. Você me parece mais tranquilo, convence ele me aceitar de volta?
     Contendo-me aos poucos, eu realmente busquei entender se eu estava louco como seu dono ou se tudo  é apenas um sonho. Fiquei um pouco pensativo olhando ao meu redor. O banco onde eu estava sentando e o campo verde são o que me resta de certeza de que ainda estou livre, sem limites.
– Claro, claro. Eu estou confuso com tudo isto... Mesmo ele quase quebrando a cadeira em você, ainda assim deseja voltar?
– Sim! Ele é meu dono. Preciso que ele entenda que a ordem do mundo mudou. Se acostume comigo. E será bom pra ele, vai ter com quem conversar. Deixará de ser só...
– Acho que entendo você. Vou lá falar com ele! – Deixo meu livro sobre o banco – Agora, pra que lado nós vamos seguir?
– É por aqui. – Saio caminhando lentamente – Agora nós vamos andar muito. Porque foi difícil encontrar alguém desde que sai correndo pelo campo atrás de um amigo. 
     Enquanto caminho pelo grande campo verde sem fim penso em como será agora que a ordem do mundo mudou. Seria tudo isto ainda meu sonho? Como este cachorro está falando comigo? Em que ponto cheguei para ouvir o cachorro? Este cachorro com sua presa direita quebrada e os olhos pretos como as manchas em seu pelo branco, andando ao meu lado: hora me olha, hora só balança o rabo.
– É aqui. – disse o cão – Olha ali o meu dono, ele já me trocou por aquela gata? – Se revolta o cão ameaçando com seu rosnado e o corpo paralisado.
     O dono do cão surge com o passar do tempo. Este tempo não pude calcular em meio ao grande campo verde. O homem que é apontado pelo cão, não tem uma aparecia agradável. Ele está olhando fixamente para uma gata preta sentada ao chão. Ela também lhe olha fixamente. Não consigo ver sua face por completo. Seu corpo é pequeno e gordo. Gordo em todos os membros: pernas, braços, mãos, dedos, tudo se mostra gordo. Pego o cão e coloco em meu colo. Seu corpo continua rígido e seu rosnado sem intervalo parece não surtir efeito sobre a gata e seu dono.
– Com licença, seu cachorro...
– Espera, espera! – Disse o homem mostrando a palma gorda de sua mão esquerda sem tirar os olhos da gata. – Estou me comunicando com minha gata por telepatia, ela se diz chateada com algum gato que à abandonou recentemente. Não tenho tempo agora para ouvir bobagens de um estranho!
– Mas, é sobre seu cachorro... – Tento eu fazer com que o senhor me olhe e talvez reconheça seu cão...
– Que cachorro? Não tenho cachorro! Você está atrapalhando, se continuar falando não vou conseguir concentrar-me na transmissão dos meus pensamentos com minha gata...

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