terça-feira, 15 de maio de 2012

Demitir-se

     Às vezes acordamos sem dormir para colocarmos nossas roupas e continuarmos nus. O livre é interno. Estamos em grades e ritos em que somos impostos. Nascendo na história: pra você o início, para outros o fim.  Neste meio sem início e fim, uma pequena parte do existir:
Mauro pega o telefone e disca pra secretária Cris.
 – Vem aqui. – Mauro é o dono da oficina onde trabalha Cris e seu namorado Humberto. Com seu 1.90 de altura e pesando 120 kg, está sempre procurando um motivo pra ser mais que um chefe chato. Tem que ser chato e falar alto, soando como seus passos ao caminhar pela oficina com sua bota tamanho 45. 
Mauro desliga o telefone. Humberto entra na sala.
– Mauro, aquele senhor pede orçamento – Apontando por de traz do vidro fumê ao senhor de chapéu branco – quer o valor de todas as peças e da mão de obra. Depois irá ver se faz o serviço...
– Humberto – Mauro levanta a cabeça e sorri – eu não aguento esses caras! Que orçamento o que... Não passa nada. Fala que tem que fazer o serviço e depois vamos conferir peças e mão de obra. Sabe né, temos que colocar algumas coisas só em nota, assim, lucramos...
Cris entra na sala:
– Você limpou minha sala de manhã? – Pergunta Mauro à Cris ignorando Humberto.
– Sim.
– Vem aqui, olha esses fios... Você acha que está limpo?
Cris não responde.
– Então... Eu vou sair agora e quando eu voltar, quero essa mesa realmente limpa. Entendeu?
– Sim...
     Mauro e Cris saem juntos da sala. Humberto sem ser notado por Cris, não tira os olhos da calça de renda com aranhas que Cris está usando. Ela caminha em direção aos fundos da loja. Humberto vai logo atrás, ele sabe do que ela precisa.
– Cigarro?
– Não aguento meu Tio. É como pensar em detalhes e nas coisas grandes. Acaba por me deixar triste, sabe?! – Disse Cris após aceitar o cigarro.
– Não sei. Você sempre me confunde com suas perguntas sobre o mundo e sobre eu mesmo. Mas, você esta falando de fios e mesa?
– Não. Estou falando que quem pensa em coisas grandes e pequenas se torna uma pessoa triste.
– Talvez... É melhor você parar de me confundir com suas perguntas.
– Tem medo delas?
– Às vezes...
“Quando ficamos juntos, sempre tenho medo de suas perguntas e depois de suas afirmações quando eu me perco sem saber sobre o que realmente ela esta falando. Ainda temo pelo dia no qual irá me perguntar o que sinto por ela. Como vou explicar?”
     Enquanto o corpo da Cris é cercado pelos braços de Humberto, os cigarros queimam. Ela sabe que não pode suportar mais.
– Sabe em que eu estava pensando? – Pergunta Cris.
– Não. Como sempre...
– Na Step Down*...
– Então vai sair?
– Quero sair! Só que tenho medo de mudar...
– Não é uma coisa do outro mundo, você pode fazer isto. O problema é que vou ficar longe de você.
– Suportaria isto?
– Não. Claro que não!
“Será que ele me ama? É isto o amor? Não suportar uma distância!? Não... Não pode ser isto. Eu deveria saber o que é, mas, isto me confunde. Eu criei o amor. Ele é uma criação minha. E ele sempre será amante, não quero me casar com ele. O amor não irá impor controle sobre mim nem mesmo a dor poderá fazer isto comigo, me controlar.”



*(Música) Step Down - Motörhead.

Nenhum comentário:

Postar um comentário