quinta-feira, 29 de março de 2012

O cigarro apagou enquanto eu decidia se o vício valia

     Minha mãe não gosta que fumo dentro da casa, então saio para fumar na praça que fica em frente da casa. É só atravessar à rua... Já é tarde, são dez horas da noite, minha mãe está dormindo, eu poderia muito bem fumar aqui mesmo na varanda, mas, ela pode acorda e se irritar; vou à praça... Ultimamente esse praça é preenchida por andarilhos e usuários de drogas. Não só essa, mas quase todas. Minha mãe sempre diz que sair da casa depois das dez é perigoso, mas, ela esta dormindo e minha vontade de fumar está adiada em horas.

– Ou... Mi arruma um careta ai?! – Ao chega na praça e tirar meu maço de cigarros do bolso, antes mesmo de raciocinar sobre isto, vem em minha direção um jovem de face magra.
– Aqui... – Passo o maço e acendo meu cigarro.
– Podi crê. O isqueiro...
– Aqui.
– Cê vai usa ele agora?
– Não...
– Vou precisa dele pra acender um pitico. Cê impresta?
– Não entendo. O que vai fazer?
– Impresta ou não?
– Claro! Pode pegar – Procuro um banco. Sento e ele se aproxima com sua mão direita no bolso.
– Já devolvo seu isqueiro. Fuma seu cigarro na boa ai...
     Ele tira do bolso algo parecido com um cone feito por lata de cerveja. Olhou e disse:
– Vô fuma uma pedra com seu isqueiro, não tenho um e não posso aguenta mais. Se quise imbora vai... Mais seu isqueiro fica.
     Ao dizer isto, acende sua droga em cima das cinzas do cigarro. Eu não vou embora. Ouvir dizer tanto sobre essa droga, que agora, ela se torna real. Fico e vejo como ele segura o que inspira. Quanto tempo eu segurava o ar em frente ao espelho? Segurar o ar e ficar olhando para ver os olhos crescerem e à face ficar vermelha. Mas, desta vez é diferente. O cigarro que vem entre meus dedos queimando. E ele, por mais quanto tempo irá segurar, quantas vezes mais irá acender?
– Ei... – Soltando fumaça se levanta do chão – cê não quis i... Quê da um pega também?
– Não. Só fiquei para ver até onde você vai...
– Como assim até onde eu vô?! Eu vô mais si mi deixa o isqueiro e algum dinheiro...
– Não quero ajudá-lo dessa forma.
– Ainda tenho essa última parada, depois que eu usa ela, não terei mais nada. Ai eu vou saí pidindo ou talvez eu saia é robando. 
– Você não pode roubar. Deus não gosta...
– Não se trata do celestial. Eu sô é humano. Isso é qui importa. Quando eu saio pedindo sou uma criança, um humilde, às vezes apenas o nada que fala portuguêis. Quando perguntam se é pra droga, digo logo que vou parar, qui será minha última. Então eles mi dão. Fico feliz, tenho outra vez a vida...
     Enquanto fala, tira do bolso mais uma porção de plástico branco. Observo e não censuro. Jogou e acendeu. Desta vez o tempo correu rápido. Olhando com seus olhos grandes, assoprou...
– Eu robaria se não mi dessem. Eu robaria! Quê sabe, eu sô um homem livre. Meus atos é pela minha liberdade, esta vendo esses bancos, essa praça, tudo isso é meu. Tudo aqui é meu! Quando eu passei por Santa Catarina, aquelas praias, aquelas ilhas, tudo, tudo era meu.
– Elas também são minhas?
– São... Mais esse isqueiro aqui agora é meu!
– Sim. Pode ficar com ele. Eu já vou indo...
     Enquanto caminho saindo da praça, penso em fumar um cigarro, mas, não tenho isqueiro para acender. Olho pra trás e leio em sua camiseta "A paz é fruto da justiça".

2 comentários:

  1. Texto excelente cara! Apresenta uma situação sem moralismos e a partir de múltiplos pontos-de-vista que se chocam (religião, Estado, liberdade pessoal, vício destrutivo, injustiça social, etc.)

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  2. Obrigado. Fico feliz em ler seu comentário!

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